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Reflexões sobre a introdução alimentar

Eating vegetables by child make them healthier

A introdução alimentar é algo fascinante. O que tento explicar pros pais está aqui. Essa é a grande “sacada”.

Quando o bebê mama pela primeira vez nem sempre é fácil, mas sabemos que é algo intuitivo, inerente ao ser humano se alimentar.  É uma questão de sobrevivência. Mas as dificuldades na amamentação são reais. Precisamos de calma, paciência e perseverança, e muitas vezes, uma ajuda oportuna.

Sabemos que as intervenções atrapalham e confundem a intuição do bebê e da mãe. Parto não humanizado, muitos procedimentos, falta do contato pele a pele na primeira hora de vida, pitacos e mais pitacos…Isso acaba tornando um momento que deveria ser íntimo, de conhecimento  exploração profunda em um ambiente cheio de dúvidas e incertezas. Felizmente uma mãe empoderada e com apoio correto conseguirão chegar lá, apesar dessas dificuldades iniciais.

Então chega os 6 meses! O bebê deixa de mamar exclusivamente no peito para então começar a explorar um universo totalmente novo, os alimentos.

Aqui, um parênteses: sei que nem todas as mães conseguiram amamentar, independente do motivo. Nesse caso o bebê está com fórmula, e também precisa iniciar a introdução alimentar. Isso ocorre da mesma maneira. Não muda porque o bebê não mama no peito. Existem algumas particularidades do leite materno que a fórmula não tem. O leite materno muda de sabor. Ele varia de acordo com a alimentação da mãe, e da necessidade do bebê. Isso é único. Mas mamãe, se você não amamenta, saiba que hoje as fórmulas são seguras e suprem a necessidade nutricional do bebê para a sua faixa etárea.

A outra questão pertinente aqui é: a licença maternidade é de somente 120 dias, o que dá 4 meses para ficar com meu bebê, e depois preciso voltar a trabalhar, como manter o aleitamento materno exclusivo? Devo iniciar a introdução alimentar antes? 

Na verdade não existe uma resposta única, padrão. Nesse caso digo que cada situação deve ser individualizada. A mãe consegue ordenhar o leite? Vai ficar o dia todo fora? Há dificuldade na amamentação? É preciso avaliar os aspectos de prontidão dessa criança para iniciar a introdução alimentar, ainda que um pouco antes dos 6 meses, até chegar numa decisão em conjunto!

Mas é importante ressaltar que organizações de referência como a Organização Mundial da Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Unicef ressaltam que a criança deve iniciar a introdução alimentar aos 6 meses. Se o bebê se encontra em aleitamento materno exclusivo, não há benefícios na introdução alimentar antes dos 6 meses. Outros guidelines Europeus e Americanos, como a ESPGHAN orientam que a introdução alimentar pode ser iniciada ao 4,5 meses. E vários países ainda orientam que a introdução alimentar seja feita aos 4 meses.

Levando todas essas considerações em conta, sabemos que a introdução alimentar pode ser feita aos 4 meses, apesar de não necessariamente ser o melhor, e que realmente seu bebê terá o desenvolvimento motor e cognitivo adequado para começar a se autoalimentar em torno dos 6 meses.

Então, o bebê começa a introdução alimentar. Tudo novo, ou tudo (de) novo! Por que esperamos que o bebê já saiba comer? Ou até, porque esperamos que ele saiba que aquilo alimenta? O bebê ainda não sabe comer. O que ele sabe é que o peito o alimenta e o nutre (ou a mamadeira, no caso de bebês que não mamam no peito). O alimento não. Dessa forma, é esperado e natural que o bebê só  brinque com a comida no início.  Depois, ao levar à boca, percebe que é gostoso, que aquilo o sacia, o alimenta! E assim vai! Mas o processo é gradual. A criança adquire habilidades que a ajudam a pegar o alimento com mais destreza e levá-lo à boca. Isso faz parte do desenvolvimento da própria criança. Motor. Cognitivo. Sensorial. Emocional até.

Nesse tempo em que a criança começa a perceber que aquilo é de comer é que nos perdemos. Ficamos ansiosos, queremos que o bebê coma o quanto achamos que ele precisa. Nos prendemos em quantidades, em números. Esquecemos de simplesmente relaxar a aproveitar o momento. Bebês não estão preocupados em quanto eles vão comer, quanto tempo vai durar, ou a bagunça que vai fazer. Para eles é um novo mundo. Uma nova desconberta a cada dia. Uma mini aventura.

Quando falo que precisamos respeitar o ritmo do bebê, trata-se de respeitar sua individualidade. De fazer menos comparações. Alguns bebês demoram dias pra começar a comer, outros demoram meses! E eu sei o quanto é difícil segurar a ansiedade e evitar comparações. Mas se fizermos a introdução alimentar pensando nisso, oferecermos alimentos de qualidade, saudáveis e de forma segura, certamente estamos no caminho certo.

Convido você a repensar a forma como tem feito a introdução alimentar do seu filho. Não importa o método. Será que tenho deixado ele explorar a comida, sentir, tocar, cheirar, saborear? Tenho forçado a alimentação num momento que ele parece não querer? Tenho usado de distrações? 
Pense nisso. 

Depois falaremos mais como criar um relacionamento positivo, e o que não fazer na introdução alimentar.

Um bjo

Dra Kelly Marques Oliveira 

Referências bibliográficas:

3 Comments

  • Mariana Monteiro 02/09/2016 Reply

    Muito bom! Resumiu o que pesquisei quando iniciei a introdução alimentar da minha filha! Muito bom saber que existem médicos como você, que se atualizam e incentivam a amamentação é uma introdução alimentar em que o bebê participa ativamente!

  • Pingback: O bebê não engasga? Introdução alimentar, BLW e engasgo | pediatria descomplicada

  • Priscilla Fagundes 01/12/2016 Reply

    Olá! Ao contrário da maioria das mães, tive a possibilidade de ficar 180 dias em licença maternidade e ainda pude tirar mais 48 dias de férias. Meu bebê já completou seis meses e iniciamos a introduçao alimentar, mas o interesse dele é quase nulo (já faz 3 semanas). Isso me deixa muito ansiosa, pois ele vai para a escolinha quando eu retornar ao trabalho. Se ele não estiver comendo nada ainda, ele não vai ficar passando fome?

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