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A história do Pedrinho – vamos falar sobre o Autismo?

O Pedrinho tinha 5 anos quando o conheci. Filho caçula de 3 irmãos, seus pais, amigos queridos. Ele gostava de brincar sozinho, vivia com bonequinhos pequenos em sua mão, não os largava por nada. As vezes chorava sem motivo. O seu lar era cheio de muito amor, sempre com muita gente por perto, amigos e família, e carinho para o Pepê não faltava.

Lembro-me da primeira vez que percebi que havia algo diferente nele. Ele não abraçava, não gostava muito de conversar, não interagia muito com outras crianças…tentava abraça-lo e beijá-lo, ele corria para o outro lado, indiferente.

Fiquei com aquilo no coração, e ao perguntar para minha amiga, ela disse: “O Pedrinho tem Síndrome de Asperger, demorou um ano para fazer o diagnóstico, apesar de insistirmos que havia algo de errado para o pediatra… Felizmente iniciou o tratamento a tempo e já melhorou muito desde então”. Ufa, graças a Deus! – respirei aliviada. Eles já sabem o diagnóstico, felizmente bem antes.

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Mas afinal, o que é o autismo? Quais são os seus sinais e sintomas e como os pais podem ajudar a fazer o diagnóstico precoce?

O diagnóstico de Autismo foi ampliado recentemente, e uma nova classificação (vide tabela) o definiu como um espectro de doenças, com diferentes manifestações e graus variados de gravidade. Sendo assim, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é definido como uma síndrome comportamental associada ao distúrbio do desenvolvimento, de etiologia multifatorial. Caracteriza-se por déficit na interação social e no relacionamento interpessoal, com alterações de linguagem e de comportamento presentes.

Essa classificação tornou-se mais ampla com o intuito de identificar a criança com autismo, porém não consegue necessariamente classificar em algum subtipo. Não vou me ater aqui na sua classificação, pois não é esse o objetivo desse post, e sim como identificá-lo precocemente para que uma intervenção possa ser feita o quanto antes.

O Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Americana de Psiquiatria (DSM- V), define o autismo baseado em alguns critérios presentes na tabela abaixo:

Transtorno do Espectro do Autismo: Deve preencher os critérios 1, 2 e 3 abaixo:
1. Déficits clinicamente significativos e persistentes na comunicação social e nas interações sociais, manifestadas de todas as maneiras seguintes:

a. Déficits expressivos na comunicação não verbal e verbal usadas para interação social;
b. Falta de reciprocidade social;
c. Incapacidade para desenvolver e manter relacionamentos de amizade apropriados para o estágio de desenvolvimento.

2. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses e atividades, manifestados por pelo menos duas das maneiras abaixo:

a. Comportamentos motores ou verbais estereotipados, ou comportamentos sensoriais incomuns;
b. Excessiva adesão/aderência a rotinas e padrões ritualizados de comportamento;
c. Interesses restritos, fixos e intensos.

3. Os sintomas devem estar presentes no início da infância, mas podem não se manifestar completamente até que as demandas sociais excedam o limite de suas capacidades.

O maior desafio do TEA é o seu diagnóstico precoce. Ainda existe muito desconhecimento do assunto entre a população geral e entre os profissionais da área da saúde, principalmente pediatras, além do medo e negação por parte dos pais. Vamos então descomplicar esse assunto de uma vez por todas e começar a entender um pouco mais sobre esse assunto ainda pouco falado.

# Porque a maioria das suspeitas só ocorre após os dois anos de idade? 

Os pais muitas vezes até percebem que existe algo de errado, porém tem medo que isso seja real e se negam a aceitar. Muitos nem comentam com o pediatra. Outros acabam passando despercebidos e só vão perceber mais tardiamente. Muitos pais de primeira viagem desconhecem o que seria o padrão de uma criança com desenvolvimento normal, e não percebem o atraso no desenvolvimento.

Não existe um programa do Governo que alerte para esse tipo de problema, e poucos pediatras estão atentos para perceber esse tipo de comportamento, pois se manifestam de formas sutis. Por tudo isso, o tema se torna ainda mais urgente.

# Porque o diagnóstico precoce é tão importante 

Quanto mais cedo é identificado o transtorno, mais rápido o curso normal do desenvolvimento pode ser retomado. Existem áreas do cérebro do bebê com autismo que não são utilizadas devido ao déficit de desenvolvimento que apresenta. Essas regiões, uma vez não estimuladas, sofrem hipoperfusão (pouco sangue chega e assim pouco oxigênio), seguidas de isquemia e lesão permanente. Sabe-se que no bebê existe uma plasticidade neuronal muito grande, e se essas regiões cerebrais forem estimuladas precocemente, impediremos que o processo de lesão não só pare de progredir, mas que essa região passe também a se desenvolver!

 

# Sites interessantes 

www.revistaautismo.com.br: feita totalmente por voluntários, a maioria pais de crianças autistas e profissionais da área.

www.autismoerealidade.org: formada por pais e profissionais que buscam difundir o conhecimento do autismo. Com muitos materiais interessantes, como vídeos, downloads e dicas para cuidar do filho autista!

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Hoje o Pedrinho está com 7 anos, ele brinca, conversa, e está começando a escrever. Ele sente como qualquer criança, ama como qualquer criança, mas tem dificuldade de se expressar. Sua mamãe o abraça e o beija, mesmo ele sendo incapaz de fazer isso…mas ele sabe que é amado.

Quantos Pedrinhos você conhece?

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Dra Kelly Marques Oliveira

CRM 145039

Pediatra, Alergista e Consultora Internacional de Amamentação 

Consultório Espaço Médico Descomplicado – São Paulo: (11) 5579-9090/ whatsapp (11) 93014-0007

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