Mas afinal, por que eu preciso fazer lavagem nasal?

 

Sempre imaginei que fazer lavagem nasal com soro fisiológico fosse algo tão simples e sem mistério que não precisaria de um post para explicar! Mas depois que postei um vídeo de uma mãe realizando a lavagem nasal do seu filho e seguiram-se milhares de dúvidas, achei que esse post seria de muita valia para vocês.

Para escrevê-lo, pedi a quem entende bem do assunto. A Ligia Tedde é otorrinolaringologista e escreve um pouco pra gente sobre a importância da lavagem nasal, sua eficácia, e como fazer de forma segura e sem mistérios. Leia até o final, pois também dou dicas importantes.

“A irrigação nasal com solução salina isotônica (soro fisiológico ou cloreto de sódio a 0,9%) é um procedimento sem contra-indicações ou limites de idade, barato e eficaz. Mas por que devemos realizá-lo?

A lavagem nasal é um procedimento descrito há mais de 5 mil anos na medicina tradicional indiana, a Ayurveda, em que teria efeitos positivos tanto na função respiratória, levando a um maior bem estar físico e mental. Ainda hoje, na medicina ocidental, é amplamente incentivada para auxílio no tratamento de diversas doenças das vias respiratórias, mas que pode gerar várias dúvidas na hora de colocá-la em prática!

Para entender sua importância é interessante que saibamos um pouco mais sobre o funcionamento do nariz e dos seios da face (ou seios paranasais).

O nariz e seios paranasais são extensas superfícies recobertas de mucosa, determinada por saliências e reentrâncias no crânio e ossos da face que são responsáveis pelo equilíbrio da temperatura e umidade do ar inspirado, tem função olfatória e de “filtro” para o ar inspirado (por ação de agentes imunológicos e enzimas presentes no muco nasal), além de atuar na ressonância da voz. Tais processos são dinâmicos e variam de acordo com mecanismos internos e em resposta à estímulos externos. Nesse tecido respiratório, temos cílios microscópicos, que se movimentam de forma harmoniosa para remover continuamente o muco para fora dos seios. Isto é chamado de Cleareance mucociliar e se repete de 2 a 3 vezes por hora!

Para que essa atividade aconteça adequadamente, é necessário que as condições sejam boas para o funcionamento dos cílios, como temperatura adequada (normalmente entre 18 e 33°C), pH próximo a 7, por exemplo. Toxinas específicas, como as produzidas por bactérias (que também podem lesar o cílio diretamente) ou inaladas, assim como uma variedade de viroses, causam redução do batimento ciliar. O movimento dos cílios comprometidos e/ou acúmulo de secreções mais espessas que o normal, pode predispor a instalação de processos infecciosos.

O soro fisiológico, em diversas formas de apresentação e aplicação, é utilizado para o tratamento clínico das rinossinusites (incluindo as rinites), pois seus benefícios incluem a limpeza do muco nasal, diminuição da inflamação local ( pois reduz mediadores inflamatório como prostaglandinas, leucotrienos e histamina), das secreções purulentas, restos de células e crostas, além de melhorar o funcionamento do sistema mucociliar como um todo. É o tratamento mais conservador e mais simples de todos! Em pesquisas realizadas in vitro, observou-se que a solução salina isotônica levou a menor viscosidade do muco nasal e melhora dos movimentos dos cílios, porém seu mecanismo ainda não foi completamente elucidado.

Em 2005, a Academy Of Allergology and Clinical Imunology e a European Rhinological Society não recomendavam o uso da lavagem nasal com soluções salinas por não haver estudos suficientes na área, sendo a prática considerada “potencialmente benéfica” (nível de evidência IIb). No entanto, em uma revisão sistemática realizada pelo renomado grupo Cochrane em 2010, utilizando estudos controlados e randomizados, demonstrou que pacientes que realizaram a lavagem nasal tiveram uma menor tendência a usar antibióticos, tampouco observados eventos adversos importantes (alguns pacientes apresentaram pequeno desconforto ou sangramento nasal, que se relacionou mais à pressão aplicada que na solução salina em si).

Em 2012, a EPOS- European Position Paper On Rhinosinusitis And Nasal Polyps, principal guideline utilizado para prática clínica no assunto, mostrou nível de recomendação A no tratamento das rinossinusites (maior nível de recomendação).

 Para a lavagem nasal em bebês e crianças pequenas podemos nos deparar com várias dúvidas e inseguranças. Para isso, podemos usar algumas dicas:

 – Sinta-se confortável para fazê-lo: você pode começar com pequenos volumes de soro fisiológico e com pouca pressão! Depois que tiver mais confiança e que a criança estiver mais habituada, aumente! Se quiser, também pode-se usar uma pera para aspiração nasal após colocar o soro.

 – Prefira deixar a posição sentada ou em pé: as crianças possuem a tuba auditiva (canal que liga o nariz até a orelha média) mais curta e horizontal, que facilita com que haja refluxo de líquidos para esta região, principalmente se a criança estiver deitada.

 – Escolha a forma de aplicação mais adequada para você: nos estudos, não houve diferença entre a aplicação com sprays ou duchas!

Segurar a respiração ou falar “Ah!” por alguns segundos: em crianças maiores e com maior compreensão, pode-se ensinar a prender a respiração ou falar “Ah!” durante alguns segundos. Isto diminui o desconforto do líquido ir para a garganta. Depois é só cuspir e/ou assoar o nariz.”

Abaixo, esclareço ainda algumas das principais dúvidas e perguntas que vocês me mandaram:

Quantos mL posso colocar em cada narina?

Não existe uma quantidade fixa para isso, nem por idade. Isso varia muito se a criança está mais secretiva, se tem algum processo infeccioso associado, ou se é somente para limpeza nasal. Comece com pequenas quantidades, como 0,5 a 1 ml em cada narina para os bebês, e depois repita quantas vezes forem necessárias. Conforme você adquire segurança ao fazê-lo, pode aumentar a quantidade se houver necessidade. No vídeo, vemos que a mãe coloca uma quantidade de 5ml.

Qual a temperatura que o soro precisa estar?

O ideal é o soro estar em temperatura ambiente ou morno, nunca gelado. Dessa forma, mesmo a secreção mais espessa consegue ser eliminada.

 Qual a posição do bebê quando fizer a lavagem?

O bebê ou criança deve estar sentado ou em pé, com a cabeça levemente reclinada para frente.

A boca do bebê precisa ficar aberta ou fechada?

O ideal é que a boca do bebê esteja levemente aberta. Para adulto, que conseguem deglutir o soro, é indiferente.

A secreção precisa sair pela outra narina? 

Não, não precisa! A secreção pode sair ou não, a depender da quantidade de soro colocada, a quantidade de secreção, e o jato. O mais comum é  sair um pouco de soro pela própria narina, o soro sair pela boca ou a criança engolir o soro com a secreção, e aí saí pelas fezes né…

O bebê pode engasgar? Pode dar otite? Perfurar o ouvido? O catarro ir pro pulmão?

Quando feita de forma segura, com o bebê sentado, com a cabeça reclinada para frente, o soro com a secreção sairá pela própria narina ou será deglutido. O nariz, ouvido e garganta estão interligados, portanto a secreção acumulada já está lá, se há um processo infeccioso. O soro irá mobilizar essa secreção. A lavagem com soro não “causa” otite, muito menos pneumonia, nem é capaz de perfurar o ouvido! O processo infeccioso instalado, sim.

Preciso fazer todo dia? 

O nariz está em constante contato com o meio externo. A higiene nasal é interessante ser feita, mas não necessariamente todo dia, nem precisa ser a seringa. Você pode usar sprays, jato contínuo, conta gotas. Se há mais secreção, provavelmente precisará aumentar a frequência e o volume do soro 😉

Consideração importante! 
Obviamente o procedimento deve ser feito da forma correta. Se você tem medo de fazer, pergunte ao seu médico como deve fazer, peça para demonstrar! De forma nenhuma a intenção é substituir uma consulta médica, ok?
Espero que tenham gostado do post!
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Dra. Kelly Marques Oliveira

Pediatra, Alergista e Consultora Internacional de Amamentação (IBCLC) – CRM 145039

Consultório Espaço Médico Descomplicado – São Paulo: (11) 5579-9090/ whatsapp (11) 93014-0007

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Fontes:

1.Fokkens WJ, Lund VJ, Mullol J et al. EPOS 2012: European position paper on rhinosinusitis and nasal polyps 2012. A summary for otorhinolaryngologists. Rhinology. 2012 Mar;50(1):1-12. doi:

10.4193/Rhino50E2. PubMed PMID: 22469599.

2.Mello Jr JFD, Mion O. Rinites Não Alérgicas. In: Campos CAH. Tratado de Otorrinolaringologia (ABORL-CCF). São Paulo; Roca, 2011. Vol.3, cap.5, p.47-64.

3. Augusto AGLBS, Campos CAH, Demarco RC, Anselmo-Lima WT. Histologia e Fisiologia da Mucosa Nasossinusal e Olfação. In: Campos CAH. Tratado de Otorrinolaringologia (ABORL-CCF). São Paulo; Roca, 2011. Vol.1, cap.33, p.641-661.

4. Kassel JC, King D, Spurling GK. Saline nasal irrigation for acute upper respiratory tract infections. Cochrane Database Syst Rev. 2010 Mar 17;(3):CD006821. doi: 10.1002/14651858.CD006821.pub2. Review. Update in: Cochrane Database Syst Rev. 2015;4:CD006821. PubMed PMID: 20238351.

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