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Parto violento, violência obstétrica e (des)humanização: até quando?

Publicado no blog do Estadão, relato de parto violento por uma estudante de medicina….como médica, já fui estudante de medicina também. Já fui interna e estive no centro obstétrico. Já vi cenas assim acontecerem. Felizmente vi também partos lindos humanizados, traduzidos por demosntrações de carinho e respeito ao próximo.

No post, foi feito o relato de uma menina de 16 anos, primeiro filho, com trabalho de parto evoluindo de forma satisfátória, sendo conduzido de forma desrespeitosa e questionável pela médica obstetra. Tinha tudo para ser um parto lindo e nada traumatizante. Mas não foi.

Fico pensando quantas cenas dessas acontecem por dia…silenciosas, sem nem sequer sabermos.

Veja um trecho do relato abaixo:

“A obstetra mandou ela se deitar na cama, para novo exame de toque, dizendo “Ah, você está fazendo é fiasco!” e rompeu a bolsa da parturiente. Líquido claro. Os batimentos cardíacos do bebê estavam ótimos, eu captava com o sonar a cada dez minutos, preocupada com tanta ocitocina. Eu tentava argumentar com a obstetra: “Dra, ela estava com contrações efetivas, ritmadas.” Mas ouvi: “Agora são meia-noite e meia. Vamos acabar com isso já!” E repetiu a pérola: “Quem é a obstetra aqui? É tu?”

Não estou aqui para crucificar os próprios médicos,  uma classe que eu mesma me incluo, e ainda digo que conheço obstetras maravilhosos, humanizados e que respeitam o ser humano de verdade. Mas não há justificativa para o que foi feito com essa mulher. Sempre temos a opção e a escolha de fazer aquilo que é correto. Se pensarmos nas pessoas como seres humanos, que tem sentimentos, emoções, que sofrem, tem medo….poderemos ser melhores pessoas.

A máxima de ” faça aquilo que vc gostaria que fizessem com você” é muito válida aqui.

Uma ação não justifica outra,  um erro não justifica outro,  por mais dias ruins que podemos ter, por mais dificuldades que passemos. Podemos descontar um dia difícil em alguém? Digo isso como médica também, pois já ouvi relatos de colegas médicos que foram agredidos por pacientes (verbalmente e fisicamente) e ainda assim continuaram a trabalhar. A incompreensão paira nos dois lados da moeda.

Quantas vezes nos submetemos a jornadas de trabalhos extenuantes, noites sem dormir, humilhações…isso justifica? Certamente que não! 

Somos todos seres que carecem de amor, respeito e consideração.  Leia mais sobre humanização do parto e método canguru. 

Veja abaixo um trecho do documento da defensoria pública do Estado de São Paulo sobre o que é violência obstétrica. Esteja consciente dos seus direitos.

O que é violência obstétrica?

a apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres por profissionais da saúde, por meio detratamento desumanizado, abuso de medicalização e patologização dos processos naturais, causando perda da autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seus corpos impactando na sexualidade e negativamente na qualidade de vida das mulheres

Violência obstétrica na gestação

  • Negar atendimento à mulher ou impor dificuldades ao atendimento em postos de saúde para acompanhamento pré natal.
  • Comentários constrangedores à mulher, por sua cor, raça, etnia, idade, escolaridade, religião ou crença, condição socioeconômica, etc.
  • Ofender, humilhar ou xingar a mulher ou sua família
  • Agendar cesárea sem recomendação baseada em evidência científica, atendendo ao interesse e conveniência do médico.

Violência obstétrica no parto

No Brasil toda mulher tem direito a acompanhante de sua escolha durante todo o periodo de pré parto, parto e pós-parto, além de ser tratada com dignidade e ter garantida sua integridade física e psicológica.

Algumas formas de violência obstétrica no parto: 

  • A recusa da admissão em hospital ou maternidade
  • Impedimento da entrada de acompanhante permitido pela mulher
  • Procedimentos que incidam sobre o corpo da mulher, que interfiram, causem dor ou dano físico. Exemplo: soro com ocitocina para acelerar o trabalho de parto por conveniência médica, exames de toques sucessivos e por diferentes pessoas, privação de alimentos, episiotomia, imobilização.
  • Toda a ação verbal, ou comportamental que cause na mulher sentimentos de vulnerabilidade, inferioridade, abandono, instabilidade emocional, medo acuação, insegurança, dissuasão, ludibriamento, alienação, perda da integridade, dignidade e prestígio
  • Cesariana sem indicação clínica e sem consentimento da mulher
  • Impedir ou retardar o contato a mulher com o bebê após o parto, impedir o alojamento conjunto mãe e bebê, levando o recém nascido para berçários sem nenhuma necessidade médica, apenas por conveniência da instituição (já viu isso?).
  • Impedir ou dificultar o aleitamento materno (impedindo amamentação na primeira hora de vida, afastando o recém-nascido de sua mãe, deixando-o em berçários onde são introduzidas mamadeiras e chupetas, etc)

Violência obstétrica no atendimento em situações de abortamento

  • Negativa ou demora no atendimento à mulher vitima de abortamento
  • Questionamento à mulher quanto a causa de abortamento (se intencional ou não)
  • Realização de procedimentos prednominantemente invasivos, sem explicação, consentimento, e sem anestesia
  • Ameaças, acusação e culpabilização da mulher
  • Coação com finalidade de confissão e denúncia à polícia da mulher em situação de abortamento

Denuncie a violência obstétrica

  • Exija a cópia do seu prontuário junto à instituição de saúde em que foi atendida.
  • Procure a Defensoria Pública, independente se você utilizou o serviço público ou privado

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Espero que esse post traga informação para que menos mulheres passem por isso. Informação é poder.

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Um abraço,

Dra. Kelly Marques Oliveira

Pediatra e Consultora Internacional de Amamentação (IBCLC) – CRM 145039

Consultório particular em São Paulo: (11) 5088-6699

Referências bibliográficas

http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/repositorio/41/violencia%20obstetrica.pdf