Cólica do bebê: parte 1

Não existe nada mais angustiante e desafiador para o médico pediatra e para os papais e mamães que a terrível fase das cólicas. E foi pensando nisso que resolvi escrever sobre esse assunto.

Uma palavrinha aos pais…

Sim, papais, nós pediatras sabemos que angustia, e muito, ver o seu bebê chorar. Não acho que de maneira nenhuma vocês estejam fazendo algo de errado, pelo contrário, sei o quanto vocês amam demais os seus filhos, de forma inimaginável, e por isso, detestam ver ele sofrer. Peço que, em primeiro lugar, livrem-se de toda culpa que porventura possam cogitar a ter, e saiba que vocês estão fazendo um ótimo trabalho. Por isso respire fundo e vamos conversar um pouco sobre o universo dos bebês, para tentar entendê-los melhor. 

A capacidade incrível de comunicação é algo único do ser humano 

Você já parou para pensar que o ser humano é o único animal capaz de desenvolver uma complexa forma de comunicação que é a linguagem? E que temos um forte senso de comunidade e interdependência? Ok, ok, mas o que isso tem a ver com post de hoje? Tudo! Deixe-me explicar…

Prontos para nascer, mas não para o mundo

O bebê não nasce preparado para o mundo…estudos mostram que o cérebro humano cresce de forma exponencial dentro do útero e não fosse por isso e pela própria limitação da pelve da mulher, os bebês ficariam mais tempo dentro da barriga! Nascemos porque temos que nascer…

O cérebro de um bebê recém-nascido é quatro vezes menor que o cérebro de um adulto. Após o nascimento, o cérebro cresce rapidamente, chegando a 60% do seu tamanho adulto com um ano de vida. Em torno de 5 anos, o cérebro atinge seu tamanho máximo, porém o seu desenvolvimento completo se dá por volta dos 20 e poucos anos, mas nunca pára de mudar!

Pense num cabritinho: logo que nasce ele precisa ficar de pé e andar, pois isso é uma questão de sobrevivência! Assim ocorre com inúmeras espécies na natureza. Os seres humanos, entretanto, têm o seu desenvolvimento mais lento. Os bebês, por exemplo, demoram em torno de um ano para dar os seus primeiros passinhos…Isso nos torna com maior capacidade de adquirir conhecimento intelectual e mental.

No entanto, por nascermos “antes” do tempo, despreparados, sofremos nesse processo de adaptação, seja em maior ou menor grau. O pediatra Harvey Karp, autor do conhecido livro “The happiest baby on the block” (O bebê mais feliz do pedaço) chama essa fase de “O quarto trimestre”, que corresponde aos primeiros 3 meses do bebê. Nesse período o bebê está ainda se adaptando ao novo meio ambiente, seja para alimentar-se (algo que nunca fez antes!), dormir, tomar banho, fazer suas necessidades (xixi e cocô), e se relacionar!

O Dr. Harvey Karp ensina que para acalmar esses bebês, precisamos imitar um ambiente muito aconchegante em que eles passaram longos nove meses ali, o útero! Essas técnicas mostraram resultados excelentes e são muito usadas para acalmar bebês. Falarei mais adiante sobre elas Fiquem comigo!

Um aspecto do choro do bebê

Agora pense num bebezinho recém-nascido que chora. Por que ele está chorando? Você já parou para pensar que é o único meio de comunicação dele? Se você pudesse falar somente um som, seja para “estou com fome”, “estou com dor”, “quero carinho”, “fiz xixi ou cocô”, “estou irritado”, “estou entediado” como você se sentiria? E ao perceber que os outros não entendem o que você está sentindo, o que faria? Gritaria mais alto? Desistiria pela exaustão?

No começo os pais se angustiam pois ainda não compreendem as necessidades do bebê no momento em que choram. E nem sempre é a tal da cólica…mas a danada está ali, pra sempre levar a culpa…

Com o tempo, os pais vão “decifrando” o choro do seu bebê, sabem mais facilmente quando é choro de fome, quando é xixi ou cocô, quando querem carinho e quando é a tal da cólica! O fato de saberem o motivo do choro os deixa mais tranquilos, e o bebê também!

Eu sei, essa palavra é importante: tempo. Queremos tudo para hoje e para agora, soluções simples, imediatas e completas. Infelizmente elas não acontecem dessa forma, mas não desanime! Apesar de tudo parecer meio nebuloso agora, vai começar a clarear daqui a pouco…

Alguns fatos importantes

Um importante estudo na revista Pediatrics sobre cólica concluiu que “A cólica é provavelmente a resposta somática mais precoce da presença de tensão percebida no ambiente. As suas variações em maior ou menor intensidade relacionam-se a fatores constitucionais.”

O que isso significa? Significa que bebês reagem ao ambiente que os cerca. Se existe uma tensão familiar, ainda que inconsciente, seja por causa do cansaço extremo, pela angústia de ter tentado de tudo e ainda não saber o que é, seja por pitaco da sogra, titio, titia, vovó, cachorro, papagaio, seja pelas inúmeras visitas ao bebê…ela existe! Pode procurar que vocês vão achar! Claro que cada bebê reage de forma diferente ao estresse, alguns mais outros menos, mas precisamos estar atentos para identificá-los

Outro estudo da revista Clinical Pediatrics em que foi feito um questionário com mães que referiam que seus bebês apresentavam choro excessivo e foi constatado através de questionários que essas mães apresentavam um nível de estresse 6 vezes maior do que o padrão considerado pelo questionário.

Assim, vem uma pergunta? Será que o estresse materno veio antes ou depois da cólica? Hum…pode ser as duas coisas. Mas se isso acaba formando um ciclo vicioso, e um alimentando o outro, melhor relaxar e cortar logo o “mal” pela raiz” não é? Mas mamães, não se culpem ok? Existem milhares de motivos (muito justos por sinal) que podem precipitar todo esse estresse…desgaste físico e mental, problemas na amamentação, o próprio medo do novo e desconhecido, afinal tudo é novidade, …

Por isso é tão importante que a família tenha toda uma rede de apoio que ajude nesse momento! Principalmente a mamãe. 

Para finalizar, eis aqui as lições do dia:

  1. Cada bebê é único. Não se prenda a padrões e comparações – “Ah! Mas a filha da tia da minha vizinha dormia a noite inteira e nunca deu trabalho! Um anjo…” – “adoro” esses comentários…Por favor, se não for ajudar não fale…

  2. Sim, existem bebês que choram mais, que são mais sensíveis às mudanças do ambiente, que têm mais cólica…e também existem os bebês mais tranquilos e que não costumam dar trabalho! Respeite a individualidade do seu bebê e procure identificar o que o deixa mais irritado.

  3. Tente entender o seu bebê e procure se comunicar com ele. Ele está chorando e pode ser por inúmeros motivos. Veja cada possível razão e não se desespere. Ah ! E faça uma de cada vez, para então você saber o que o estava estressando.

  4. Mamães, procurem relaxar. Lembre-se da importância de ter um ambiente tranquilo de paz, pois o bebê sente essas coisas. Revezem com os papais nos cuidados, com titia, vovó, sogra…

  5. Bebês choram. E sim, eles choram para tudo! Essa é a forma de comunicação deles com o mundo. Se for cólica o choro tem algumas características específicas as quais explicarei mais adiante. E acredite, ela passa sim!

Bom ainda tem muito desse assunto para falar, por isso, aguarde os próximos posts!

Espero que tenham aprendido bastante! Compartilhe para que outras pessoas também possam ter essa informação 😉

Um bjo

Dra. Kelly Marques Oliveira

Pediatra, Alergia e Imunologia e Consultora Internacional de Amamentação (IBCLC) – CRM 145039

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Referências bibliográficas

  • Association of Reported Infant Crying and Maternal Parenting Stress. Susan A. Beebe. CLIN PEDIATR January 1993 vol. 32 no. 1 15-19
  • Paroxysmal fussing in infancy, sometimes called “colic”. Morris A. Wessel et al. PEDIATRICS Vol. 14 No. 5 November 1, 1954 pp. 421 -435

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